sexta-feira, 16 de abril de 2010

MEMÓRIAScontinuação

.... Nesse final de dia e como timha ainda algum dinheiro, resolvi voltar a dortmir na pensão, pois para além de não te para onde ir, também nada encontrara mais barato.
Custou-me imenso adormecer nesse dia, pois para além da fome,não conseguia vislumbrar nenhuma saída para resolver o problema da dormida. Depois de muito
"matutar", decidi que no dia seguinte, falaria com o chefe, no sentidode me ajudar a tentar um adiantamento sobre o vencimento ou um empréstimo.
Nodia seguinte, logo que foi oportuno, falei com o chefe que me levou ao local onde
podia eventualmente resolver a questão. Mais uma vez me foi recusado qualquer hipotese de auxílio pois não era norma do Banco agir dessa forma. Escusado será dizer o desanimo edesalento que experimentei, mas mais do que isso, foi a raiva e a
fúria que tomou conta de mim, pois podia até enntender as normas do Banco, mas o que
não podia aceitar era a fora como os colegas, conhecedores da minha situação, não tivessem tido um pingo de solidariedade.Novamente a constatação que os retornados para eles valiam ZERO.Então pensei que devia atribuir esta derrota, mais à invalidez do impulso interior, do que aos obstáculos que estavam a ser postos à minha frente, mais à minha alma incapaz de se bater com vigor e tenaciaded, do que às minhas resistências. O mal que via era o aguilhão para o bem que desejava.Tinha que resistir,mas essa resistência tinha que ser assente sobretudo no contacto com a relaidade e força criadora.Mas naquela altura o que mais podia fazer. Desejava ardentemente estar com os meus filhos, levar-lhes a minha presença, mas como realizar
isso, se nem sequer tinha meios para eu próprio subsistir.Ainda continuei por mais
alguns dias na Pensão pois a minha mãe tinha-me enviado por um portador.No final
do mês de Setembro, recebi metade do vencimento e tive que abandonar a pensão e dormir onde calhasse. Confesso que de todas as dificuldades que tive de enfrentar em
toda a minha vida, essa foi sem dúvida a experiência que mais me custou, que mais me
dilacerou, e que me marcou profundamente. Tinha deixado a mala num armário nas casa
banho do Banco, e ao fim da tarde depois saída, deambulava pelas ruas até às tantas da noite e quando me sentia completamente exausto, acabava por dormitar escassas horas no Parque Eduardo VII, ou nas escadas das entradas do Metropolitano que aí existem.

A noite tem um encanto diferente do dia, mas é também a altura em que o lado mais selvagem do homem aparece. Sentia-me só, triste e completamente perdido.Nessas deambulções notívagas, parava para observar as pessoas ora apressadas, ora vagarosas,
os carros que passavam, as montras, o movimento dos cafés, e vi muito mais coisas
inclusivé certos caminhos que eram oferecidos de mão beijada, nomeadamente droga e prostituição, que eram sem dúvida uma tentação.Felizmente andei por outros caminhos,mas caminhos por onde nunca tinha andado, o caminho da fuga a uma rusga policial, o caminho da fuga para evitar ser reconhecido por um colega,o caminho da
tentação de entrar num café e roubar um bolo porque estava faminto,o caminho da fuga das conversas com os sem abrigo,( com quem aprendi muita coisa)o caminho da fuga de mim mesmo.Muitas vezes ficava parado na penumbra, atento a todos os ruídos, que do,
alto das escadas do metro se ouviam, e aos poucos ia sendo invadido pela fadiga e pelo sono.Sentado ficava por ali por muito tempo, com as penas encolhidas,dobrado sobre os joelhos, com o rosto apoiado nas mãos abertas, enquanto o frio se espalhava pelo corpo.Apesar de estar cheio de sono, só conseguia adormecer por curtos períodos,
devido à posição e ao frio e ansiava deseperadamente pela manhã.

Recordo que um dia ainda cedo, acordei sobressaltado, ouvi ruidos de passos a descer as escadas.Em poucos segundos, estava confrontado com um enorme cão a ladrar e a a fazer avanços para me morder. O que me valeu foi o dono e a trela com que o segurava. Envergonhado, levantei-me e sai para a rua.Tinha parado de chover. No alto das escadas junto ao Marquês, o céu começava a tingir-se de fortes tons avermelhados,pois em breve seria dia claro.Deliciei-me um pouco com esta visão, enquanto o corpo aquecia um pouco.Dei graças a Deus por mais um dia,e também por ao menos os meus filhos, terem uma cama onde dormir

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