sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

OS EFEITOS DO 25 DE ABRIL (continuação)
......... A ordem e a disciplina era coisa que práticamente não existia, a falta de respeito
e a agressividade para com a etnia branca estava presente em cada momento, o receio pela
integridade física era uma constante,fruto do tiroteio que diariamente assolava as nossas
vidas. O caos generalizou-se ao ponto de começar uma fuga generalizada para Portugal e outras paragens.Não fiquei nem podia ficar indiferente às consequências que isso estava a
provocar na minha família pois a isso era obrigada a assistir no dia a dia.Foi assim que passado pouco tempo do nosso regresso a Angola, que a minha mulher e filhos rumaram a Portugal.Sendo eu Angolano de nascença, de corpo, alma, coração e convicção, resolvi permanecer na minha terra, esperando sempre que no futuro próximo, imperasse o bom senso, a compreensão e a paz, para que todos em conjunto aproveiássemos o que nos era dado por direito, a fim de consolidarmos uma Angola cada vez maior em todos os sentidos.
Puro engano e ilusão. A guerra civil estendeu-se por todo o País, com focos arrasadores no Norte e Sul.A economia perdeu-se,, as casas, estradas, pontes e infraestruturas foram práti-
camente destruidas. Iniciou-se então um período de grande instabilidade a todos os níveis pois ninguém controlava nada nem ninguém. As reduzidas forças policiais e militares, não conseguiam controlar as piores situaçãoes, por, obviamente não estarem interessadas. Além
disso toto o controlo nos seu exyerior já era exercido pelos tres movimenros de libertação,
normalmente com deficiências enormes, e muita prepotência. As forças Portuguesas eram então
muito poucas para aguentar por muito mais tempo, os desmandos e a desorganização, que envol-
viam os postos superiores. Quase ninguém sabia a quem obedecer, e nem o faziam os que sabiam,por conveniência ou interesses particulares, ou por não serem capazes. Todo o control
de entrada e saida de Benguela eram feitos pelos movimentos de libertação, mas que até entre
si, não se respeitavam nem entendiam, procurando cada um tirar o maior proveito e as mais
imediatas vantagens.Assim eram cometidos descatos de toda a ordem e pelos mais banais motivos, sendo que na maioria das vezes incidiam mais sobre os Angolanos brancos por as-
cendência. Tudo servia de pretexto para desancar, para mostrar quem tinha a força, o poder de dar ordens, ou simplesmente de "malhar" no desprotegido, chegando mesmo ao ponto de em alguns casos terem sido mortos, e o que era pior, feito perante a passividade e conivência das autoridades de ocasião.As promessas tinham sido muitas e irreais, e portanto já não era fácil voltar atrás.Todos se julgavam com direitos ilimitados, sem respeitarem os dos outros,ainda que os reconhecessem, e só imperava a lei da força e da perpotência.Os asaltos às residências eram constante com o intuito do saque e desmantelamento. Apesar de tudo isto
e embora consciente da gravidade que representava ficar, por lá continuei, à espera de melhores dias e por acreditar que apesar de tudo ainda era possível.Sofri perseguições injustificadas, ameaçado com armas no meu local de trabalho, preso por recusar entregar dinheiro do Banco à Unita e solto dois dias após intenso interrogatório.Passei fome e frio,
a minha casa controlada e vistoriada diariamente. Quando os desmandos da Unita se tornaram
insuportaveis devido ao apoio das tropas Sul Africanas, resolvia deixar Benguela.

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